domingo, 10 de maio de 2009

Uma breve descrição de Deus...

Se havia disputas entre os físicos, estas não eram nada comparadas com as que existiam entre os biólogos, quando se chegava à discussão do velho problema: «Qual será o aspecto de extraterrestres inteligentes?» Dividiam-se em dois campos opostos - um argumentando que tais criaturas tinham de ser humanóides, e o outro - igualmente convencido de que «elas» não deviam parecer-se com o homem.

Defendendo a primeira hipótese encontravam-se os que acreditavam que duas pernas, dois braços e órgãos principais dos sentidos no ponto mais elevado, constituíam uma concepção tão básica e lógica, que se tornava difícil imaginar uma melhor. Claro que existiriam diferenças menores, como seis dedos em vez de cinco, colorações estranhas da pele ou do cabelo, e expressões faciais esquisitas; mas a maioria dos extraterrestres inteligentes - cujo nome era, geralmente, abreviado para E. Ts. - devia ser tão parecida com o Homem, que provavelmente seria impossível distingui-los a uma luz mais fraca, ou quando observados à distância.

Este pensamento antropomórfico era ridicularizado por outro grupo de biólogos, verdadeiros produtos da Era Espacial, que se sentiam libertos dos preconceitos do passado. E relembravam que o corpo humano fora o resultado de milhões de escolhas evolucionárias, levadas a cabo pelo acaso, ao longo de milénios. Em qualquer altura destes incontáveis momentos de decisão, os dados genéticos podiam ter caído de outra forma, talvez com melhores resultados. Pois o corpo humano não passava de uma bizarra obra de improvisação, cheio de órgãos que haviam sido desviados de uma função para outra, nem sempre com muito êxito

- e até contendo peças deitadas fora como imprestáveis, caso do apêndice, que mais valia não existir.

Bowman descobriu também que havia pensadores com pontos de vista ainda mais exóticos. Estes não acreditavam que seres realmente avançados possuíssem qualquer tipo de corpo orgânico. Mais cedo ou mais tarde, diziam, à medida que o conhecimento científico progredia, haveriam de desembaraçar-se dos corpos propensos a doenças e a acidentes que a Natureza lhes dera, e que os condenavam a uma morte inevitável. Deviam substituir os seus corpos naturais à medida que estes se gastavam - ou talvez mesmo antes -, por construções de metal e plástico, conseguindo, assim, a imortalidade. O cérebro talvez permanecesse mais tempo, como último vestígio do corpo orgânico, comandando os membros mecânicos e observando o universo através dos sentidos electrónicos - sentidos muito mais precisos e subtis que os que a evolução cega alguma vez poderia desenvolver.

Os primeiros passos nesta direcção já haviam sido dados na própria Terra. Milhões de homens, dantes condenados, levavam vidas activas e felizes graças a membros, rins, pulmões e corações artificiais. Assim, a conclusão só podia ser uma - por mais distante que estivesse.

E, se calhar, até o cérebro haveria de poder ser substituído. Não era essencial para abrigar a consciência; o desenvolvimento da inteligência electrónica provara-o bem. Talvez o conflito existente entre mente e máquina acabasse por ser resolvido nas tréguas eternas da - simbiose total...

Mas as coisas encontrariam aqui o seu fim? Alguns biólogos com tendências místicas iam ainda mais longe. Especulavam, e aproveitavam-se das deixas das crenças de muitas religiões, que diziam que o espírito acabaria por se libertar da matéria. Tal como o corpo de carne e osso, também o robótico não passaria de um marco na direcção do que, havia já muito tempo, se chamava «espírito».

E se existisse algo para além disso, o seu nome só poderia ser Deus


Arthur C. Clarke
2001 uma odisséia no espaço

sábado, 9 de maio de 2009